27/05/26

Estudo da FNP estima custo bilionário para prefeituras com a mudança da escala 6x1

  • Mudança pode gerar impacto de R$ 35 bilhões
  • Maior pressão fiscal aparece nos contratos de terceirização
  • Discussão precisa considerar regras de compensação aos municípios

 

A Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP) encomendou estudo técnico sobre as mudanças na escala 6x1 com o objetivo de oferecer subsídios para a compreensão do tema no âmbito dos governos municipais.

O levantamento, realizado pela Finance Estudos e Pesquisas, sob a coordenação do economista José Roberto Afonso, teve como foco os possíveis efeitos, desafios e alternativas relacionadas à proposta em discussão no Congresso.  

Os números analisados mostram que a alteração no regime de trabalho, considerada a partir de uma jornada de 40 horas semanais sem redução salarial, pode custar aos cofres municipais R$ 34,7 bilhões.

Desse total, R$ 29,2 bilhões correspondem a aumento de despesas correntes com pessoal, contratos de terceirização e Organizações Sociais (OS).

Quando incluídas as obras públicas, os valores ultrapassam a casa dos 30 bilhões de reais (valores corrigidos para março de 2026).

“Quando uma decisão nacional cria novas obrigações para os municípios, é necessário discutir também transição, compensação e sustentabilidade fiscal”, reforça Sebastião Melo, prefeito de Porto Alegre/RS e presidente da FNP.

Metodologia

O estudo foi elaborado com base em dados oficiais da RAIS, SICONFI/STN e IBGE[1], além de informações coletadas diretamente junto a prefeituras por meio de questionário elaborado pela Finance. A amostra reuniu 28 municípios, que representam 16,5% da população brasileira e 22,1% do PIB nacional.

A análise concentra simulações no cenário de redução da jornada para 40 horas semanais, sem redução salarial, alinhada ao projeto encaminhado pelo Governo Federal ao Congresso Nacional em 14 de abril. O relatório não simula outros cenários, como eventual redução para 36 horas semanais.

Quatro frentes de análise

A estimativa foi organizada em quatro componentes principais de impacto fiscal:

  1. Pessoal e encargos: custo estimado de R$ 5,4 bilhões em valores correntes. A análise considerou vínculos celetistas e temporários nas administrações municipais, com base na RAIS e no SICONFI.
  2. Contratos de terceirização: principal fonte de pressão, com estimativa de R$ 20,4 bilhões. O estudo mapeou atividades com maior incidência de jornadas típicas de 44 horas, como coleta de lixo, varrição, limpeza, segurança, vigilância, copeiragem, recepção, merenda e manutenção.
  3. Organizações Sociais: acréscimo estimado de R$ 3,6 bilhões, especialmente em áreas vinculadas à saúde e assistência social.
  4. Obras públicas: impacto estimado de R$ 5,3 bilhões, considerando o aumento de custos em obras e instalações municipais.

Municípios serão afetados de forma desigual

Um dos principais achados do estudo é que os efeitos da mudança de jornada não serão uniformes. A realidade dos municípios brasileiros é marcada por forte heterogeneidade: cada prefeitura trabalha com diferentes arranjos de contratação, níveis distintos de terceirização, maior ou menor presença de temporários e diferentes formas de prestação de serviços essenciais.

Segundo o levantamento, áreas sociais e administrativas mais centrais, como educação, segurança e parte da saúde, tendem a ter maior execução com pessoal próprio. Já atividades como coleta de resíduos, serviços de limpeza, segurança, vigilância e serviços urbanos apresentam maior presença de terceirização ou modelos mistos.

A diferença é decisiva para dimensionar os custos. Municípios com maior participação de contratos terceirizados ou temporários tendem a sentir efeitos mais intensos, pois a redução da jornada pode demandar ampliação de equipes, renegociação contratual ou aumento de custos para manutenção da mesma prestação de serviços.

Terceirização concentra maior pressão fiscal

O maior impacto estimado aparece nos contratos de terceirização: R$ 20,4 bilhões, equivalente à maior parcela do impacto corrente total. O estudo considera que diversos serviços municipais essenciais são prestados por empresas contratadas, muitas vezes em atividades intensivas em mão de obra.

Entre os serviços mais sensíveis estão:

  • coleta de lixo;
  • varrição;
  • destinação e manejo de resíduos sólidos;
  • limpeza;
  • segurança e vigilância;
  • serviços de apoio, como copeiragem, recepção, merenda e manutenção.

A depender da estrutura contratual de cada município, a redução de jornada pode pressionar o equilíbrio econômico-financeiro de contratos em vigor e exigir reorganização operacional para evitar perda de continuidade nos serviços.

O levantamento também mostra que a capacidade de absorver a redução de jornada apenas com reorganização interna é limitada para parte relevante dos municípios. Muitas prefeituras indicaram baixa capacidade de adaptação sem novas contratações ou ampliação de contratos.

Debate federativo

A Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP), a partir destes dados, reforça a defesa no amplo diálogo com as prefeituras quando mudanças legislativas tendem a onerar o orçamento dos municípios. Mudanças nacionais com impacto direto sobre as cidades devem considerar mecanismos de transição, compensação ou mitigação fiscal.

Precedentes aprovados recentemente, como a reforma do Imposto de Renda, que isentou quem ganha até R$ 5 mil, são ganhos sociais, porém com altos custos para as prefeituras.

A conclusão central é que a discussão sobre jornada de trabalho precisa incorporar a realidade da prestação de serviços municipais, sob risco de pressionar orçamentos locais já comprometidos com saúde, educação, segurança, limpeza urbana, manutenção e investimentos

 


[1] A RAIS é um relatório administrativo do Ministério do Trabalho e Previdência, utilizado para monitorar atividades trabalhistas. O Siconfi (Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro) é uma ferramenta da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) para receber, consolidar e divulgar informações contábeis, financeiras e orçamentárias de estados e municípios. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é o órgão oficial de estatística, geografia e pesquisas demográficas do Brasil.

 

Última modificação em Quarta, 27 de Mai de 2026, 10:16
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